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sábado, 15 de maio de 2010

O PODER DAS BIBLIOTECAS

Darnton, Robert. “O poder das bibliotecas” São Paulo: Folha de São Paulo, 15 de abril de 2001. Jel: Z





O poder das bibliotecas
Robert Darnton


Meu tópico diz respeito ao futuro das publicações, mas tal como a maioria dos historiadores eu tento na verdade compreender algo sobre o futuro estudando o passado. Nós, historiadores, somos o que os franceses chamam "passéistes", ou seja, estamos sempre voltados ao passado; e, à medida que nele ingressamos, de vez em quando batemos o olho no retrovisor e pensamos captar relances do futuro. Gostaria de oferecer aqui alguns desses relances. Aliás, devo admitir que passei tanto tempo com colegas franceses que creio que seja possível dividir qualquer assunto em três. Assim, organizei meus pensamentos em três partes. A primeira parte refere-se a bibliotecas; a segunda, a livros; a terceira, a arquivos.
Bibliotecas. Vistas de dentro de grandes monumentos, elas parecem indestrutíveis. Mas, de fato, a história mostra que bibliotecas estão sempre sendo destruídas, e cada vez que uma biblioteca vem abaixo muito da civilização desaba com ela. A Biblioteca de Alexandria parecia que iria durar tanto quanto as pirâmides e, de fato, sobreviveu quase um século, mas, quando foi destruída, perdemos a maior parte da informação então disponível sobre a Grécia antiga, 700 mil volumes. Perdemos o maior repositório de conhecimento sobre a Europa medieval quando Monte Cassino foi bombardeada na Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, a destruição da Biblioteca Nacional do Camboja pelo Khmer Vermelho deu cabo do maior estoque de informações sobre a civilização cambojana.
Esse, aliás, era o objetivo do Exército de Pol Pot, obliterar o passado e começar de novo a partir do que chamavam "Ano Zero". Destruíram quase todos os livros -estima-se que 80%- e mataram todos menos três dos seus 60 bibliotecários. Ora, os livros mais valiosos revelaram ser os inscritos em folhas de palmeira. Folhas de palmeira apodrecem na umidade tropical e, portanto, tinham de ser recopiados a certo intervalo de tempo por monges budistas. Mas o Khmer Vermelho destruiu também os monges budistas, assim não sobrou ninguém para salvar o minúsculo fragmento da biblioteca que sobreviveu, e este continuou apodrecendo nas ruínas do prédio. Todos nós enfrentamos problemas de preservação, mas eles variam enormemente de textos digitalizados a folhas de palmeiras.
Embora minha intenção não seja reduzir os problemas à história militar, não posso resistir a mencionar a própria biblioteca da universidade em que leciono, que foi destruída (salvo cinco volumes) na batalha de Princeton, em janeiro de 1777. E, claro, os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso em 1814. Tivemos assim de começar tudo de novo neste país, auxiliados felizmente pela biblioteca de Thomas Jefferson como uma fundação.



Universidade sem biblioteca Claro, não espero que ninguém aqui presente tenha a sua biblioteca destruída pelo fogo inimigo. Mas a história das bibliotecas demonstra que elas são mais vulneráveis do que pensamos -e não só por causa das guerras. Dirão alguns que elas podem ser substituídas pela Internet. Ora, quanto a mim, sou partidário da digitalização, mas fiquei horrorizado quando soube que o projeto original para um novo campus da Universidade da Califórnia em Monterey nem sequer incluía uma biblioteca. Imaginamos as bibliotecas como o núcleo de nossos campi, mas esse seria um novo campus sem uma biblioteca. Os projetistas julgaram que os computadores seriam suficientes, supostamente porque acreditavam que os livros nada mais fossem que recipientes de informação. Hoje muitos estudantes adotam essa atitude, e não só na Califórnia. Acham que pesquisar é surfar. Quando escrevem trabalhos, costumam surfar na Internet, baixar os arquivos, recortar, colar e imprimir. Se tal nos fornece um relance do futuro, é o quanto basta, a meu ver, para tornar a pessoa um ludita (1).
Nossas bibliotecas devem, é claro, microfilmar e digitalizar, mas devem também conservar livros -os livros originais. Não há tal coisa no estrito linguajar bibliográfico como uma cópia, e uma cópia digitalizada não pode ser um substituto adequado para o original. Isso me leva a meu segundo ponto, notadamente os livros. Tomem a biblioteca de Jefferson: uma versão digitalizada de todo o seu conteúdo não chegaria perto de lhe ser uma réplica. Quando Jefferson serviu como embaixador na França, comprou uma quantidade de livros para si próprio e para seu amigo íntimo, outro futuro presidente, James Madison. Se lemos a correspondência de Jefferson e Madison, temos uma maravilhosa troca de reflexões filosóficas e idéias revolucionárias de dois estadistas-filósofos. E temos também um quadro desse homem extraordinário, Thomas Jefferson, caminhando pelas ruas de Paris à cata de pechinchas nas livrarias.
A maior pechincha que encontrou, segundo uma carta que escreveu a Madison datada de 8 de fevereiro de 1786, foi uma cópia da "Encyclopédie" de Diderot. Como escreveu a Madison: "Posso arranjar-lhe a edição parisiense original in-fólio da "Encyclopédie" por 620 "livres'". De fato, a edição original estava esgotada na época, e as pouquíssimas cópias que podiam ser encontradas em livraria custavam duas vezes mais a importância citada por Jefferson chegavam por vezes a 1.500 "livres".
Jefferson, que era uma espécie de ingênuo bibliófilo no estrangeiro, não topara com edição original nenhuma, e sim com uma edição fragmentada cujos remendos tinham sido alinhavados por especuladores no comércio livreiro de quinquilharias. Esses especuladores apanhavam sobras de folhas de uma reimpressão genebrina barata, preenchiam as lacunas reimprimindo as folhas que faltassem e faziam passar as cópias sarapintadas como a primeira edição original. No processo, é claro, o texto de Diderot saía truncado. Assim é que a Biblioteca do Congresso não tem o que pensa ter, embora possua na verdade algo igualmente interessante, um espécime de "encyclopédisme" com desconto, que dá testemunho físico do turbulento mercado dos clássicos do Iluminismo na Paris pré-revolucionária.
Para compreender a história dos livros, é preciso estudar os próprios livros, em toda a sua materialidade, não versões digitalizadas que se façam passar como seus substitutos. O filósofo inglês John Locke (1632-1704) observou certa vez que a Bíblia transmitiria mensagem diversa se fosse impressa como um fluxo de texto contínuo, em vez de estar dividida em minúsculas unidades tipográficas conhecidas como capítulos e versículos. Graças a essas unidades, sabemos citar capítulo e versículo e distinguimos particular sacralidade nas letras vermelhas das edições com letras vermelhas, embora, é claro, essas convenções tipográficas nada tenham a ver com os originais hebraico, grego e aramaico.

A primeira página do "Times"
Ou, para tomar um exemplo mais tosco e imediato, considere-se a primeira página do "The New York Times". Gosto de pensar nela como uma espécie de mapa conceitual dos acontecimentos ocorridos no dia anterior. Mas, como a maioria dos mapas, ele guarda apenas uma relação arbitrária com a realidade. Acontece que a primeira página do "The New York Times" é desenhada todo santo dia numa reunião com todos os editores sentados ao redor de uma mesa no terceiro andar dos escritórios do "Times", na rua 43, às 16h30. A reunião é na verdade uma competição por espaço. O editor nacional, o chefe da sucursal de Washington, o editor de notícias estrangeiras, o editor metropolitano, o editor de esportes, o editor de cultura..., todos querem mais centímetros de coluna numa página. E, é claro, querem ter a matéria de destaque. Todos os dias a mesma batalha, e o resultado é a idéia que formamos do dia anterior -notadamente, a primeira página do "The New York Times".
Quando lemos a primeira página, parece-me que estamos, conscientemente ou não, seguindo convenções tipográficas. Não lemos da esquerda para a direita, porque a matéria de destaque está sempre à direita. Você lê


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Esse objeto do dia-a-dia, o "The New York Times", jamais poderia ser compreendido se simplesmente digitalizássemos seu conteúdo, pois seu sentido efetivo está encerrado no modo como ele é agrupado
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à direita, depois lê à esquerda, e talvez já saiba que os assuntos de menor peso ocorrem sempre abaixo da dobra. Recentemente tem havido uma tendência de situar a matéria de realce no canto superior esquerdo, e certas manchetes fornecem pistas do conteúdo. Um cabeçalho em "Q" indica uma notícia de fundo interpretativo, e não de fatos concretos. Esse objeto do dia-a-dia, o "The New York Times", jamais poderia ser compreendido se simplesmente digitalizássemos seu conteúdo. Seu sentido efetivo está encerrado no modo como é agrupado.
Eu sustentaria que o sentido completo de um livro ou objeto impresso jamais pode ser captado pela digitalização de seus conteúdos. Cada objeto impresso depende de boa dose de elementos paratextuais, incluindo layout, capa, tipografia e o próprio papel. Esse argumento é tanto mais válido para os arquivos, o que me leva a meu terceiro ponto. Para fixar a impressão de um documento, é preciso lê-lo no original, e não somente lê-lo, mas também manuseá-lo.
Eis Diderot escrevendo para sua amante, Sophie Volland, a 31 de agosto de 1760: "Beijo tuas duas últimas cartas. São elas letras que traçaste, e, à medida que as traçavas, tua mão tocava o espaço que as linhas preencheriam, e os intervalos que as separariam. Adeus, minha cara. Beijarás o fim dessa linha, porque eu também a terei beijado aqui, e aqui. Adeus".

Caráter físico da carta Diderot transmite o caráter físico da carta, como ele beijou as próprias palavras e sabia que sua amada tocaria o papel no qual depositara seus beijos. Num plano mais prosaico, sinto um efeito cinético ao ler manuscritos de cartas comerciais do século 18, a sensação flácida ou engomada do papel, o rebrilho da tinta, a generosidade das margens (extravagantemente amplas no alto em cartas a personagens importantes), o elaborado dos lacres de cera. Quando os selos ganharam existência, também eles transmitiam mensagens em toda a sua materialidade. Havia um código prevalecente entre os correspondentes em Paris durante os anos de 1890. Se um amigo ou amante, por exemplo, colasse um selo de cabeça para baixo e na mesma altura que o nome do destinatário da carta, isso era sinal de que o remetente estava bravo. Ora, uma edição digitalizada dessas cartas jamais poderia transmitir o impacto que terão tido quando seus destinatários as recebiam e buscavam o selo de ponta-cabeça ou virado para cima. O pesquisador interessado em trocas epistolares depara-se com cartas que cheiram a perfume, cartas literalmente escritas a sangue (o marquês de Sade foi adepto disso), cartas com marcas de lágrimas ou mesmo com lágrimas fingidas feitas com respingos de água no papel.
Se preferir uma visão menos romântica, imagine o pesquisador estudando as operações de um negócio ou burocracia. Você, o pesquisador, preenche uma papeleta, e no fim chega uma caixa à sua mesa, nos arquivos. Você desamarra a fita, abre a caixa e retira um de talvez uma dúzia de dossiês. Em cada dossiê, encontrará talvez uma dúzia ou mais de cartas, mas essa dúzia de cartas, que ocupa somente uma pequena parte dessa caixa, está tão longe de representar a totalidade do assunto que você começa a imaginar como é que lhe poderá fazer jus, porque há tantas mais caixas, não apenas dúzias, mas centenas, milhares, alongando-se, parece, ao infinito. Assim é trabalhar nos Archives Nationales de Paris. Você poderia passar uma vida inteira trabalhando em meio a caixas e nunca chegar ao fim.
Mas, de algum modo, dessas caixas você tem de escrever história. Como? O processo, a meu ver, é misterioso, mas uma coisa, ao menos, é certa: ele é arbitrário. Seu livro irá mencionar somente uma pequena fração dos documentos que consultou. E essa fração não passa de uma porção ínfima de tudo quanto poderia consultar, houvesse mundo e tempo suficientes.

Fabricar um livro Há algum meio de tornar clara a experiência de encontrar seu caminho na insondabilidade daquilo que resta do passado? Talvez não, mas tenho uma sugestão: um livro eletrônico. Imagino que seja uma pirâmide, organizada em camadas. A camada superior poderia ser uma narrativa comum, passível de ser impressa na forma habitual de um códice. As camadas seguintes seriam compostas de minimonografias, que abordariam aspectos do tema que não se ajustassem facilmente a uma narrativa convencional. E abaixo delas haveria ainda outras camadas, transcrições de documentos, por exemplo. Mais embaixo ainda estariam os ensaios historiográficos e metodológicos ou links para outras obras sobre temas correlatos, para bibliotecas inteiras.
Ora, você poderia ler um tal livro do modo comum, horizontalmente, por assim dizer, percorrendo a narrativa do topo. Mas, se topasse com um assunto que lhe interessasse, poderia ler verticalmente, entranhando-se cada vez mais fundo nas camadas inferiores ao clicar seu caminho pelos hiperlinks. E poderia então baixar e imprimir as partes que quisesse. De fato, a impressora poderia estar anexada a uma máquina de encadernação, de modo que você pudesse fabricar uma brochura de encomenda e lê-la à vontade. Resta saber se esse sonho pode ser realizado, mas estamos trabalhando para isso na American Historical Association, com patrocínio da Mellon Foundation. E, sejamos ou não bem-sucedidos, creio que meu argumento central é válido. Contemplando o passado, podemos aprender o bastante para moldar o futuro, não simplesmente substituindo a impressão pela digitalização, mas combinando digitalização e impressão.
O livro tradicional nunca esteve em melhor forma do que hoje, mas, ao refletir sobre a sua história, podemos encontrar uma nova espécie de livro e estabelecer uma nova espécie de leitura. Assim, apesar de todas as complexidades técnicas que lhes confronta essa conferência, concluiria com uma mensagem simples: preservem o livro, cerrem fileiras pela biblioteca. Essa, creio eu, é a estratégia mais construtiva para o futuro.

Nota
1. Alguém que se opõe à mudança tecnológica. A palavra vem de Ned Ludd, operário inglês que inspirou grupos de trabalhadores conterrâneos a destruírem, entre 1811 e 1816, máquinas têxteis por julgarem que elas, economizando trabalho, fossem responsáveis pelo desemprego.

Disponivel em: http://www.race.nuca.ie.ufrj.br/journal/d/darnton2.doc

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